Comunicação

Por uma comunicação que emociona


Sempre fui muito sensitiva. Talvez por ser mulher, talvez pelas experiências que me moldaram. Fato é, no entanto, que me sentia um peixe fora d’água, pois percebia nos processos de comunicação uma ênfase excessiva na normalização e no burocrático, enquanto a emoção se restringia a um status de menor importância.

Trabalhando com web, a relação emocional com as marcas ficam mais exacerbadas e visíveis, sobretudo por serem componentes de um sistema visível e aberto aos interagentes. Muito antes da internet passar de tendência à realidade, porém, eu já reforçava a necessidade de um olhar cuidadoso ao que mobiliza qualquer ser humano: a emoção. Na comunicação interna, no terceiro setor, nos empreendimentos particulares, atingir o hemisfério direito do cérebro é vital para que os objetivos de comunicação e de gestão sejam alcançados. Engajar, proporcionar vivências e relações marcantes, planejar num sistema que considere e harmonize expectativas são objetivos que dificilmente podem ser alcançados sem emoção. Maturana (2002) propõe que

não é a razão o que nos leva à ação, mas a emoção. Cada vez que escutamos alguém dizer que ele ou ela é racional e não emocional, podemos escutar o eco da emoção que está sob essa afirmação, em termos de um desejo de ser ou de obter. Cada vez que afirmamos que temos uma dificuldade no fazer, existe de fato uma dificuldade no querer, que fica oculta pela argumentação sobre o fazer. […] Há uma certa sabedoria consuetudinária tradicional quando se diz “Pelos seus atos os conhecereis”. Mas o que é que conheceremos observando as ações do outro? Conheceremos suas emoções como fundamentos que constituem suas ações.

É necessário evocar um lado mais humano à formação dos comunicadores, às custas de, se não o fizermos, termos um campo de trabalho meramente tecnicista. É imprescindível mudar a curva: dar à emoção o caráter estratégico que ela merece nos processos de comunicação. Obviamente, não reduzo a importância de resultados quantitativos, por exemplo, mas defendo que, ao fazer parte e ser ativada durante o ciclo objetivo-processo-resultado, a emoção potencializa os feedbacks à marca.

Mário Sérgio Cortella, um filósofo que gosto muito por suas provocações acerca da vida contemporânea afirmou em entrevista ao site Planeta Sustentável “Eu me recuso a ser apenas algo que passa. Eu desejo que exista entre mim e o resto da vibração da vida uma conexão. Essa conexão é exatamente a construção do sentido: eu existo para fazer a existência vibrar”. Penso que assim deve ser a comunicação: que mexe, inquieta, gera buzz, faz borbulho entre os atores do campo pela vibração que provoca nos sentidos.

Uso este espaço a favor da sensibilidade, da emoção e da psicologia trabalhando aliadas ao comunicar. Utilizo-o para salientar a necessidade de uma formação mais holística, que dê conta de um olhar, um pensar e um fazer mais abrangentes e que agreguem esta complementariedade das áreas aos relacionamentos institucionais, sobretudo quando o objetivo é emocionar.

Obs: Essa reflexão foi inspirada no texto “Que tipo de emoção você quer sentir hoje?”, de Anselmo Ramos, vice-presidente de criação da Ogilvy.

Referências
MATURANA, H. Emoções e linguagem na educação e na política. Belo Horizonte: UFMG, 1998.

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Comunicação, Curiosidades

Sensibilidade Comunicativa


Sensibilidade – Uma palavra bonita e simbólica, mas que na prática parece estar cada vez mais em desuso. Nos processos de comunicação a sensibilidade (também chamada de feeling) dita o sucesso dos negócios. Aliás, ter sensibilidade deveria ser pré-requisito aos ingressantes no mundo comunicacional (é uma pena que ninguém fala isso aos vestibulandos de comunicação social).

Posso estar sendo radical, mas creio que na comunicação (em especial nas Relações Públicas) ser sensível é vital. Não escrevo sobre a sensibilidade romantizada que traz a nossa mente a idéia de mocinhas chorando. Discorro sobre ser sensível às necessidades, às expectativas de todos os envolvidos no processo de comunicação.

Ao passo que as mídias sociais passaram a fazer parte dos relacionamentos corporativos, também ficou visível a falta de sensibilidade da maioria dos nossos comunicadores (repito, a maioria, não todos). Numa arena predominantemente opinativa, é perceptível o ar de “falo o que quero e me ouve quem quer”, mas a intersecção pessoal-profissional é intransponível. Somos um universo de sentimentos e não uma bolha, que distingue twitter pessoal do profissional, por exemplo. A presença dos comunicadores nas mídias sociais deveria ser, a meu ver, educativa e propositiva, baseada em conhecimento sólido e em busca de legitimidade. Observo, porém, expressiva repercussão de textos mal escritos e com grotescos ataques ao bom português, erros primários de posicionamento nas mídias sociais, uso excessivo de palavras pejorativas em críticas a marcas (o que depõe contra qualquer argumentação), entre outros. Para quem trabalha com comunicação: falta de sensibilidade.

O olhar atento e cuidadoso ao estar presente nessas mídias sociais é fundamental ao comunicador. Não dá para perder o respeito por todas as outras partes do processo de interação, postando opiniões sem base de argumentação. É necessário pensar antes de agir: em que medida isso é realmente útil para quem está interagindo comigo nesta plataforma? Essas atitudes denotam bons hábitos de um RP: perceber os anseios das audiências e pensar estratégias de relacionamento a partir dessa percepção.

Comunicadores, resgatemos nossa sensibilidade. Façamos antes que seja tarde (ainda não é?).