Comunicação, Opinião

Sobre a (in-)tolerância na comunicação

Numa conversa entre amigos veio à tona nessa semana um assunto que muito me intriga: minha amiga espantada com a curiosidade do filho teve que responder a pergunta: “Por que não podemos ser amigos de todos os times?”. Pergunta inocente, mas me fez perceber nessa criança a manifestação de um contexto mais amplo, no qual é quase habitual conviver com intolerância, impaciência e extremismo.

Assuntos como futebol e política mexem com as emoções das pessoas de uma maneira impressionante. São causas que movem por si só. Lovemarks que mobilizam – sim, estou generalizando ao tratar personagens do futebol e da política como marcas, mas isso é assunto para um próximo post. A inquietação da criança sinaliza alguns fatores para refletir sobre a postura enquanto comunicadores.

Transponho a realidade para a comunicação. Nesse meio, é imperativo ter opinião, personalidade, se posicionar, ser desse ou daquele lado. É natural negar e criticar – principalmente aquilo que nasce e se desenvolve nas culturas mais populares. Até agora falo em assuntos de âmbito geral, mas quando falamos em política, por exemplo, as características do meio são ainda mais notáveis: extremismo, falta de diálogo, imposições de comunicadores que, fazendo mal uso de sua influência e poder de replicação, se sentem os donos (e únicos donos) da verdade.

Uso este espaço para defender uma práxis diferente e que me move. Na verdade é a comunicação que me faz lutar, engajar, trabalhar, defender e independe de qualquer corporativismo de classe. Não gosto de intolerância, justamente por acreditar que ela contraria a preocupação com o principal ativo de qualquer relação: o ser humano. Não gosto do imposto, gosto do negociado, ajustado e, infelizmente, num processo de colocação de ideias impostas como verdades únicas o diálogo se perde. Pior: os argumentos cedem espaço a um “ter que ter razão”, movido pelo ego e pela cultura do meio que impõe o ter opinião firme e expressa. Cada ser humano é único, dotado de uma historicidade que o diferencia dos demais e molda sua visão de mundo. Somos, nós comunicadores, também diferentes e é isso que deve ser respeitado em todos os níveis de interação.

Não consigo tirar a comunicação do seu lugar de dar sentido a algo (ou a tudo), através do respeito às diferenças e à realidade de cada pessoa. Faço parte de um grupo que vê o diálogo e a compreensão da diversidade como fator importante para qualquer transformação pessoal e coletiva, além de legitimação profissional da comunicação. Não sei o que minha amiga, também comunicadora, respondeu, mas eu diria “A diversidade é sempre bem-vinda, ainda que inquiete!”.

Para finalizar, uma passagem que expressa um pouco do que penso – e quero: “ganhar o respeito de pessoas inteligentes e o afeto das crianças; merecer a consideração de críticos honestos; apreciar a beleza, encontrar o melhor nos outros; deixar o mundo um pouco melhor.” (de Ralph Waldo Emerson). E para você, qual o limite da crítica? Até onde vai a sua (in-)tolerância?

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Comunicação, Opinião

Não é o troco do meu coração!


Sou leitora assídua do Blog Ocappuccino, mas hoje ao acordar me deparei com um post que me motivou a escrever. Admiro o conteúdo do blog, a importância que tem para a profissão de Relações Públicas e principalmente a representatividade pelo fato de ter nascido na minha Universidade (agora eu fui bairrista, hehe)! Mas acho que discordar é rico! Então, segue minha manifestação:

Vai parecer uma proclamação esquerdista isso (eu sei), mas nos últimos dias meu maior grito tem sido contra a @ciazaffari, aliás, justamente contra o Troco do Coração. Inclusive já bradei contra a @cdlpoa no twitter e nenhum retorno. Mas OK, concordo em discordar. De qualquer forma acho justo expor meus argumentos:
Primeiramente, doar não é conceito de responsabilidade social (muito menos quando as doações NÃO são institucionais). Seria, se o caso fosse, filantropia no caso do próprio Zaffari doar um pouco do seu montante. Mas não é.

Me sinto desconfortável sendo interpelada todos os dias: moça, quer doas 3 centavos pra fulano? Sim, porque eu sou vizinha do Zaffari e freqüento suas dependências todo santo dia. Pobres atendentes ficam todas constrangidas quando digo que não. Depois ainda vejo nos meios de comunicação a Cia Zaffari fazendo um belo Marketing Institucional às custas dos clientes, vendendo a idéia como uma bela iniciativa.
Ora bolas, sabemos mais que bem que o faturamento do Zaffari não é pequeno (até porque eles prezam pela qualidade e capricham no preço – aliás, ótimo posicionamento de mercado). É uma hipocrisia vender uma imagem de responsabilidade social quando não saiu nenhum centavo de um bolso muito rico. Seria honroso e aplaudiria em pé se visse nas manchetes: Cia Zaffari doa tanto percento de seu faturamento à Santa Casa de Misericórdia. Mas não, para mim soa como: fulana, sua palhaça, o Zaffari está usando todos os seus centavos doados para dizer que ele faz responsabilidade social.

Aí pode algum defensor do “FAÇA SUA PARTE” dizer: ah, mas pelo menos tu te sente menos mal, te sente bem em contribuir com alguma coisa no mundo. Doar não é a melhor forma de contribuir penso. Evoquemos outros conceitos de cidadania, que inclusive podemos exercer no nosso dia a dia, como respeito e educação a nossos semelhantes – aqui se inclui também os diferentes -, doação de sangue, trabalho voluntário em alguma instituição de caridade, entre inúmeros outros. Doar centavos como forma de amenizar a culpa é escapismo.

Penso em cidadania sim. Aliás, discordo (de novo) de que “o que não tem remédio, remediado está”. Mais uma vez: escapismo. Quero que as caixas tenham moedas de um centavo ou que os preços abandonem a demarcação dos 99 centavos (sempre!) pra nos dar a impressão de que pagamos menos. Quero parar de me sentir constrangida e constranger a caixa ao dizer que não quero doar. Digo sempre NÃO AO TROCO DO CORAÇÃO, porque meu coração é mais nobre que isso.